Nunca mais terei 25 anos de idade

Neste artigo, faço uma reflexão sobre a minha trajetória desde 2019 até ao fim de 2025, quando percebi que nunca mais terei 25 anos. Partilho como comecei a compreender o verdadeiro significado da liberdade financeira, os erros que cometi com o meu dinheiro, as metas que estabeleci e os desafios que enfrentei. Reflito sobre a importância de agir hoje, valorizar o tempo e assumir responsabilidade pelas minhas escolhas, enquanto busco equilibrar ambição, segurança financeira e bem-estar pessoal.

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O ano era 2019. Depois de um longo dia de trabalho, eu e o meu colega conversávamos a caminho de casa. Naquela altura, o nosso trajeto demorava algo em torno de 1h30min nos dias em que, claro, o trânsito estava bom. O que, por acaso, não foi aquele dia.

Nesse dia, encontrar táxi estava difícil. Demoramos mais de 30 minutos só para conseguir subir em um táxi que nos tiraria do centro de logística do Talatona para a Rotunda do Camama, para lá lutarmos novamente para conseguir subir em outro táxi. Por sorte, o táxi em que subimos, que fazia o trajeto Rotunda do Camama para Calemba 2, acabou por se estender até ao Shoprite em Viana, o que facilitou um pouco o nosso dia, já que não precisaríamos descer para procurar outro táxi.

Mas por que estou a falar sobre isso? Bem, nesse dia tivemos bastante tempo para conversar sobre muitos assuntos, e um deles, que é o destaque neste texto, era sobre liberdade financeira. Naquela época nós (digo os dois) já estávamos a começar a interessar-nos por assuntos relacionados a finanças. No meu caso, porque tive uma experiência muito próxima de quebrar financeiramente. Sim, eu sei, tinha 19 anos, estava a trabalhar… é quase ilusório falar em quebrar financeiramente. Não vou me alongar muito nesse tópico agora, já que posso sempre escrever sobre essa quase experiência em outro artigo.

Carlos, naquele dia, trouxe uma visão diferente daquela que eu tinha sobre liberdade financeira. Para mim, eu era livre financeiramente a partir do momento em que não dependia mais dos meus pais para comprar o que eu quisesse. Posso dizer que foi uma conversa bem intensa, já que eu não conseguia perceber o princípio que ele me apresentara. Liberdade financeira é poder viver sem se preocupar em trabalhar, porque o dinheiro que tens consegue suprir as tuas necessidades. Estou a parafrasear, já que não me recordo 100 por cento do que ele falou, mas o contexto era esse.

Aquilo, por si só, foi um choque de realidade para mim, porque achava que estava a gerir bem os meus objetivos financeiros e estava a falhar em um princípio básico. Aquilo devia estar errado, eu não queria acreditar, até que não tive outra opção a não ser aceitar, já que com simples reflexões podia confirmar o que o Carlos mostrara.

Pode parecer um pouco dramático o parágrafo anterior, mas para mim foi mesmo. Até aquela conversa eu não tinha uma visão sequer de 10 anos no futuro. Eu sabia o que queria a nível profissional, mas não sabia o que queria a nível financeiro.

Lembro-me de que, com o meu primeiro salário, eu comprei um massageador de olhos. Sem dúvidas, uma compra estúpida e movida por emoção. Mas, na minha cabeça naquele momento, compensava “investir” naquele massageador, já que eu usava os olhos para programar. E, se isso por algum motivo te fez pensar que não era um motivo tão estranho assim, vamos adicionar que só comprei porque vi a venderem. Eu tinha ido àquela loja para comprar auriculares. Não fazia ideia sequer de que existiam massageadores de olhos.

Foi uma compra movida totalmente pela emoção, e eu só cheguei a usar aquele massageador umas duas ou três vezes desde que o comprei. Era muito inútil para mim.

Hoje, durante o banho, estive a pensar em outro artigo que estou a escrever, quando notei que o ano de 2025 estava a terminar, literalmente. E com essa realização percebi também, talvez pela primeira vez, que os meus 25 anos estavam a ir-se embora.

Como consegui enquadrar-me relativamente rápido no mercado de trabalho, quase sempre tive dinheiro, sem contar que, durante os primeiros anos, vivi em casa dos meus pais, o que permitiu acumular algum dinheiro antes de sair de casa deles.

Porém, sempre que alguma coisa não saía como eu tinha planejado, por exemplo, uma barbearia em que tínhamos colocado dinheiro e acabamos por fechar sem nunca ter aberto oficialmente, eu pensava: não foi tanto dinheiro assim, consigo cobrir o investimento; sou jovem, trabalho mais e recupero isso.

Hoje, pus-me a refletir quantas vezes eu já me disse isso quando coloquei dinheiro em alguma coisa e não tive retorno algum. A quantidade de dinheiro que joguei ao vento é incrível.

Mas não é apenas sobre dinheiro. Muitas pessoas criam metas no início do ano para depois se estressarem no final do ano. Eu nunca fui uma pessoa de escrever metas. Sempre acreditei que elas mais limitavam do que realmente ajudavam, e no final eu acabaria por não cumprir nem metade delas. Porém, em 2024, escrevi pela primeira vez as metas que tinha para o ano.

Obviamente eram metas muito difíceis de serem realizadas, sem dizer que eram 20 metas. Eram tão irreais que eu tive de ir ajustando para baixo ao longo do ano para ver se conseguia fechar uma ou duas das 20 pré-estabelecidas.

Uma das metas que eu tinha era mudar-me de Angola para o exterior, meta essa que acabou por se realizar, mas que prejudicou muito as outras metas, já que todo o processo custou muito tempo, esforço físico e intelectual, sem falar dos custos de adaptação no meio do ano de 2024.

Nesse ano, eu tinha alguns outros investimentos a acontecer em Angola que larguei com a premissa de ser jovem e poder explorar outros horizontes para voltar mais forte.

Mas hoje percebo o quão danoso esse pensamento é. Em finanças sempre se diz: o melhor dia para começar a investir é hoje, o segundo melhor dia é amanhã. E mesmo sabendo tanto sobre finanças, esses pensamentos de deixar as coisas para amanhã são uma luta que tenho travado há muito tempo.

Pergunto-me: se tivesse realmente começado, será que estaria mais próximo dos meus objetivos do que estou hoje? Será que poderia finalmente olhar para o céu e respirar a liberdade financeira que tanto almejo?

Esta geração é estressante, a internet é estressante. Vivemos a ver uma vitrine o tempo todo, e isso acaba por nos cansar bastante.

E eu não sou exceção a isso. Como Rockefeller disse, mais dinheiro nunca é demais.

Sempre tive um pensamento de acumular riqueza. Acredito firmemente que, com dinheiro, todas as outras metas podem ser facilmente resolvidas. Esse pensamento guia-me todos os dias, desde os testes que faço, o consumo, o que estudo. Claro, gostaria de poder só viver, mas acredito que é difícil simplesmente viver quando sabemos que existe uma forma correta de viver.

Por exemplo, do que adianta eu comprar o carro dos sonhos (que nem meu sonho é), os melhores relógios e joias, se isso pode impactar negativamente o meu futuro? Será que compensa gastar demais hoje e viver miseravelmente quando eu estiver mais sensível?

Lembro-me de ter comentado com o meu amigo Cabanga outro dia: poxa, mais valia não ter começado a estudar sobre isso. Seria tudo mais fácil. Era só deixar o Estado cuidar de mim no futuro, como os meus pais e amigos mais velhos confiam no INSS.

Este ano, não preestabeleci metas, nem me dei ao trabalho. E hoje notei também que faz muito tempo desde que sentei na cadeira para estudar computação. Parece que, de certa forma, o meu foco está a mudar. Antes, o que eu achava ser o mais importante passou a ser apenas um caminho para o que eu realmente preciso. E parece que preciso de um novo ikigai.

Será que ainda terei tempo para fazer o que eu quiser amanhã, se não fizer hoje? O que eu quero fazer hoje?

Não posso iludir-me e pensar que para sempre terei a mesma energia e disposição. Isso é mentira, e eu já começo a sentir isso. Antes, ficava até as três ou quatro da manhã a brincar nos meus projetos com bastante energia. Hoje, o meu corpo desliga sozinho à meia-noite, e tenho de lutar bastante se quiser aguentar até mais tarde.

Assim como o meu paladar mudou ligeiramente, sinto o meu corpo mudar. Antes, não suportava melancia ( hoje adoro 😻 ) ou guisado (havia até uma música que as minhas irmãs cantavam, dizendo que eu cantava aquela música sempre que o almoço era guisado).

O meu corpo dá-me sinais. Pergunto-me se o meu cérebro ainda terá a mesma facilidade e elasticidade que tinha antes quando eu queria aprender um assunto novo.

E sobretudo, será que eu deveria arriscar mais hoje? Talvez o que eu tanto almejo esteja próximo e eu só precise saltar mais um pouco. Ou será que não preciso saltar e posso aguardar pacientemente por uma escada para subir até ao objetivo? Será que essa escada chegará? Será que, se eu saltar, posso cair mais fundo?

Hoje, de facto, tenho menos oportunidades de ser livre do que tinha no ano passado. E não digo só financeiramente. Quando crescemos, temos mais responsabilidades, as costas ficam mais pesadas. Gostaria de ser como aquelas pessoas que passam o dia todo a beber, até voltar a pensar novamente no quão difícil deve ser carregar a carga do álcool no corpo para provavelmente tentar esconder tristezas.

Realmente, o único ativo que todos nós temos em comum é o tempo e, infelizmente, nenhum de nós controla o tempo. Só podemos reagir a ele.

Enfim, relembro que faltam pouco mais de três dias para 2025 terminar e, no próximo ano, será o primeiro e o último ano em que terei 26 anos e a oportunidade de fazer melhor por mim, já que infelizmente não há como voltar ao passado.

Pensei em escrever este artigo apenas como uma reflexão. Espero que, de certa forma, tenha despertado a tua atenção para este facto. Às vezes precisamos de um empurrão para conseguirmos notar o que está mesmo à nossa frente.

Obrigado.

Playlist que usei quando escrevia o artigo: Brain.fm Radio (opens new window)